sábado, 23 de outubro de 2010

Festival de Sangue

Muitas pequenas grandes histórias nestas últimas semanas.

Terminou a poucos dias o principal festival comemorado aqui no Nepal, Dhasain. O festival dura mais ou menos 8 dias e é marcado pela imensa quantidade de sangue derramado em sacrifíos. Estou vivendo em Kathmandu, ao lado de uma lindíssima praça, cheia de templos onde, pelo que ouvi dizer, o sangue sobe na altura do tornozelo durante os principais dias do festival.

Não queria estar presente para este evento, mas tbm sabia que não conseguiria evitar assistir algo do gênero... seria como esperar visitar alguma família no natal sem ver toda a morte que se esconde por detrás de nossos enfeites de mesa.

Fui convidado para ir a uma vila com uns amigos  (o Nepal é 80% vilas como as que postei no album de fotos) e passei as celebrações por lá, na casa de um conhecido nepalez. Assistimos três dias de cabeças rolando, no entanto, o modo ritualistico e "respeitoso" com que as famílias executaram as sentenças, com seus mantras, sacerdotes, flores, tendo os animais dentro de casa por vários dias antes, trouxe uma leveza ao ritual todo. Para nós, apesar de vegetarianos, assistimos com muito respeito. Os animais foram limpos, preparados com amor pelas mamâes e servidos com muito roxy, um vinho local feito de cerais (milet).

A questão da abolição dos animais sempre me causa grande comoção, todavia, é muito diferente presenciar o ato xamânico, cheio de simbolismo e devoção destas pessoas em comparação com nossa crueldade mascarada em pacotes congelados e coloridos nos supermercados, com desenhos de carinhas de animais sorrindo na embalagem. Somos muito mais brutais em nossa ascepcia e cega carnificina do que estas pessoas que empunham em suas mãos grandes facões e, na presença de todos, bebês e adultos, rezando e abençoando os animais, cortam-lhes a cabeça e lavam-lhes as entranhas.

Gostaria de presenciar o momento em que como um todo, a humanidade cessace de derramar sangue inocente sem a menor necessidade, com tanta terra, e com tanta variedade de vegetais que dispomos no planeta mais fértil deste sistema solar, mas me surpreendi ao conseguir estar lá com estas pessoas neste momento que foi para eles sagrado.

Voltei para a capital e ontem participei de um ensaio fotográfico para a coleção de roupas de uma estilista canadense que faz roupas muuuuito loucas. Do sacro à vaidade num pulo!! hehehe

Vou ver se consigo umas fotos do ensaio para postar por aqui!

Paz e simplicidade a todos.

Um comentário:

cidinha disse...

Querido Satyavan Namaskar!
Este é com certeza o mais triste capitulo do seu blog.
Eles na sua inocente ignorância não sabem que enquanto houver derramamento de uma gota sequer de sangue das criaturas inocentes, não haverá paz no mundo, como disse Gandhi. A gente sabe que nenhum Deus,qualquer que seja a crença, necessita desses ritos ditos sacrais...
beijos
Cidinha
Om Shanti