Venho para estas terras distantes e descubro o quão próximo de mim mesmo posso chegar. Há um ponto de mutação em minha história pessoal que divide realidades em diversas facetas, e outro ponto que as integra.
Os Hindus adoram 33 milhões de faces de Deus e encontram a perfeita unidade entre todas elas em Brahma, o único, supremo e indivisível Deus criador. Mas parece que esta capacidade de O ver em tantas faces revela a carinhosa capacidade de O reconhecer em todas as Suas expressões.
Quanto a mim, percebo um desconforto gástrico todas as vezes que me aproximo de algo que se assemelhe a uma religião.
As religiões são estruturas ou sistemas dotados de aspirações espirituais, todavia estas aspirações raramente se realizam pois se articulam atravez de conceitos psicológicos cuja finalidade é controlar e regular o comportamento humano.
A espiritualidade, por outro lado, nasce do interior do ser humano, de uma instância anterior e mais profunda que a mente e orienta o comportamento humano, todavia livre de controles ou regulações. É na liberdade do espírito e na fluidez das ações na vida que a espiritualidade se manifesta e conduz a um profundo senso de auto-realização.
A religiosidade, por sua vez, nasce de ideias e ideiais humanos, da mente e das instâncias do ego, apontando para uma realização espiritual que se realiza mais em termos psicológicos, ou seja, no nível da mente do que no espírito em sí.
Visitei com um novo grande amigo, Federico, minha associação de yoga aqui em Kathmandu, no início desta semana. Fomos recebidos por um Dada muitíssimo bacana. Entramos juntos em uma bela sinergia espiritual, nossos olhos brilhavam e os corações estavam bem aquecidos. O monge nos convidou para um retiro (DMS – Dharma Maha Sammela) que aconteceria no final de semana. Instantaneamente senti o tal desconforto gástrico, mas meu amigo ficou curioso e sugeriu que fossemos.
Ontem pela manhã saimos de nossas guest houses, de mala e cuia, e fomos... eu, Fede, Atma e Joel. Caminhamos por mais de uma hora pela cidade até encontrarmos o local.
Haviam alugado um prédio de 5 andares para sediar o evento. Muitíssimas pessoas vieram de todo o Nepal e tbm da Índia.
Nos acomodamos no salão lotado, arrumamos um local para deixar nossas bagagem e tbm para dormir.
O homem mais importante da organização deu um discurso, não o compreendemos pois falou em hindi, mas seus olhos não tinham brilho algum. As pessoas, apesar de entediadas, tiravam fotos dele como se fosse um ser especial.
Ao término de seu discuro deu-se início ao kiirtan e à meditação coletiva. As ações mecânicas nestas duas práticas foram tão chocantes que me senti em uma liturgia católica ou protestante da pior qualidade.
Meu espírito gritava de dentro de mim clamando para que eu fosse fiel a mim mesmo e me retirasse imediatamente daquele local. A foto de meu Baba, imensa, ia do chão ao teto – tudo o que o Mestre menos desejava em seus ensinamentos. O culto estruturado sem alma, sem espirito, sem verdade, sem coração.
Quando a meditação chegou ao fim, as pessoas se levantaram e o sorriso lhes voltou à face: estamos livres! podia-se ler em seus semblantes, livres para sermos nós mesmas novamente. Ao ver-nos, brancos, europeus, sul e norte americanos, os monges voaram como lobos em busca de novas ovelhas para seu rebanho. Tentavam dissuadir meus amigos a aderirem à suprema verdade da qual “eles” eram os guardiões e mantenedores.
Queriam dinheiro obviamente, é sempre assim! Quase sempre, para ser mais justo.
Fui muito direto, cortei a onda, e sugeri aos meus amigos que saíssemos de lá o quanto antes. Aproveitamos o fato de estarmos com todas as nossas coisas e pegamos um ônibus para fora de Kathmandu, para uma fazenda de permacultura onde agora estamos, nas monhanhas.
Estar rodeado por estas pessoas cheias de luz, beleza, plena e brilhante humanidade é um fator de pura iluminação para minha alma. Ações espontâneas, nos menores gestos de gentileza, preocupação mútua e um nível de companherismo no qual nossas posses e riquezas servem para o benefício de todos revela que os verdadeiros renunciantes estão disfarçados de gente comum, que não reclama para si a posse de nenhum bem; que renunciaram o desejo de converter o seu próximo às suas supremas verdades. Renunciaram a renuncia e vivem guiados pelo espírito, são bem humanos, não usam adereços nem roupas especiais para mostrar seu pedigree espiritual. Riem, choram, meditam qdo tem vontade, quando a alma pede silêncio e introversão, e não religiosamente para ganhar a salvação... nem mesmo querem ser salvos, estão presentes e felizes e sabem que tudo o que almejam está aqui e agora.
Encontrei uma família de errantes espirituais e renunciei ao desapego pois desejo, do mais profundo de minha alma, com eles peregrinar e semear sorrisos gratuítos, gesto de benevolência espontânea e comunhão sincera. Com esta irmandade entôo meu sincero Baba Nam Kevalam!

4 comentários:
que delícia!!!!
Finalmente consegui publicar um post!
Parelheiros está sendo meu novo refúgio. Estou trabalhando com parques lá! Passei três dias em uma pousada e vieram vários cheiros doces da natureza que me lembraram muito muito você!
Amor::::::
Que grande e livre é a sua alma!
Tudo que precisamos enxergar está sempre bem à nossa frente. Mas só enxerga quem tem olhos de ver.....
Namaskar!
beijos
Om Shanti
Uauuuuu, que bonita a experiência, que profundo e que real! A foto mostra bem o momento que vc descreveu. Lindo, lindo! Um grande Salve pro senhor!! Amei o o post
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